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"Tirania está mal escrito..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.04.10

 

Tirania está mal escrito, dito pelo tirano, é a line mais paradoxal do filme The Postman. O General Bethlehem que pensa dominar todo o território, descobre a rebeldia em simples folhetos. A raiva da descoberta do impensável até esse dia, leva-o a retaliar em diversas aldeias indefesas. Mas o movimento da liberdade e da esperança já se tinha iniciado e já não iria parar.

E pensar que esta aventura se iniciara da forma mais casual. Bem, não tão casual assim... Afinal, a liberdade e a esperança estão inscritas nos genes humanos. E mais ainda na alma americana, mas isso já é outra história...

 

Bem, vamos fazer rewind e começar do princípio: estamos em 2013, no pós-guerra total, que deixou a América, e talvez o mundo, numa Idade Média reeditada: voltou-se ao cavalo como meio de transporte, e às lanternas de gás e às fogueiras. Os carros apodrecem pelos caminhos desertos ou nas aldeias onde as pessoas se agruparam. Só as armas dos bandos armados ainda funcionam, ou não fosse o lado bélico outro dos genes humanos... Um desses bandos armados, talvez o mais forte, é liderado pelo General Bethlehem, que utiliza a violência da forma mais arbitrária, perversa e cruel.

 

 

Um intervalo aqui, retomo o fio à meada amanhã, se não se importam. Mas quis já aqui deixar o filme que escolhi nesta Páscoa. E já irão perceber porquê...

  

O nosso herói, futuro homem dos correios (não gosto muito da palavra carteiro), é apanhado pelo bando do General Bethlehem e obrigado a aderir ao clã e a prova é uma marca no braço. Estes soldados são autênticos escravos, nada mais, sujeitos à sede de violência de um General demente. Há nele um prazer em humilhar os mais fracos. Para provar a sua liderança inquestionável, submete-os às humilhações mais incríveis e a uma vida de terror, com jogos absurdos. Mata sem quaisquer escrúpulos, e pior!, sem qualquer critério. Mata porque sim, porque lhe apeteceu, porque os quer ver completamente dominados pelo medo. Nele há também uma erudição adquirida à pressa, debita de vez em quando uma ou outra frase de Shakespeare que deixa os homens perplexos.

O General desconfia que o nosso herói sabe mais do que o que revela saber, que é diferente dos restantes combatentes. Desafia-o um dia a citar Shakespeare. O nosso herói percebe que para sobreviver àquele clã terá de provar que é ignorante e cobarde. Mas será a citar Shakespeare que fica na mira do General. Terá, assim, de provar que é um cobarde, nada interessado em lutas ou lideranças. Aceita os golpes do General sem ripostar e promete a si próprio que irá escapar dali o mais depressa possível.

Há pessoas que nunca se submetem à escravidão. E, mesmo presas, tudo farão para se libertar. Enquanto não o conseguem concretizar fisicamente, ou geograficamente, escapam para um mundo só seu. O nosso herói sonha com um lugar, Saint Rose. Mesmo que lhe digam que não existe, ele está seguro, seguríssimo, que um dia chegará a Saint Rose.

 

Muitas peripécias o esperam nessa aventura maior de se libertar da escravidão. Desde a traição de um dos companheiros mais chegados à quase traição de um outro. Mas consegue. Digamos que a sorte o acompanhou. Até a noite, a chuva e o frio o deixarem completamente exausto. É a tremer que entra num jipe abandonado e descobre, à luz de um isqueiro, que o seu habitante, já esqueleto, era um homem dos correios. Com uniforme e tudo. E descobre ainda o saco da correspondência, com cartas lá dentro, cartas com destinatário mas que não chegaram ao destino. Fica ali a lê-las. De manhã, já é um outro homem que sai do jipe. De uniforme e um novo ânimo. Já não é apenas um fugitivo, tem uma função, levar as cartas ao seu destino.

 

Os correios funcionam aqui como o símbolo perfeito da sobrevivência das pequenas comunidades espalhadas e isoladas, e da resistência possível à violência dos bandos armados. Os correios como símbolo dessa sobrevivência e resistência, pois permitem uma ligação territorial, uma unidade territorial, são aqui um elemento muito inteligente e original da história e do filme.

Quando tudo parece perdido, as pessoas isoladas nos seus refúgios, e vulneráveis à pilhagem dos bandos armados, surge este elo de ligação, e tudo começa ali, naquele homem dos correios, vestido com o uniforme, e a contrariar todas as notícias, todas as evidências, da destruição total da América como país organizado, com um Presidente e um governo. Isto é genial. Genial. E funciona muito bem no filme.  

 

 

Um novo intervalo, para retomar o raciocínio... Ainda gostaria de evidenciar o papel de um miúdo voluntarioso, o animado Ford Lincoln Mercury, que mudara de nome porque este ligava melhor com a condução de carros. Esta personagem é uma das peças-chave da história. Mas já me adiantei à história.

 

O primeiro teste ao seu novo papel não foi propriamente fácil. A aldeia protege-se como pode, à maneira dos antigos fortes americanos do far west quando conquistavam o território aos seus habitantes originais. A protecção é uma muralha improvisada, com troncos de árvores. O Sheriff de Pineview é o mais reticente possível à sua entrada na aldeia. O nosso herói bem tenta mostrar-lhe que representa o governo e que as comunicações e o funcionamento dos correios tinham sido restabelecidos, mas o Sheriff é um homem céptico. Só com o impacto da leitura de uma carta, último recurso criativo do nosso homem dos correios, num destinatário que responde no meio da multidão expectante, é que lhe abrem o portão. A mulher, apoiada pela filha, adquire uma nova vida, a carta mostrava-lhe que alguém da sua família sobrevivera à guerra. E a magia começa ali. Recebem-no como a um hóspede desejado, dão-lhe jantar, e ainda haverá baile. E também há uma rapariga, e que até é uma rapariga muito voluntariosa, além de muito bonita, diga-se de passagem. Mas terão de ver o filme, porque eu vou-me concentrar na mensagem que me inspirou.

Recebem-no, pois, como um hóspede, disse ali atrás. Todos, não. O Sheriff mantém o cepticismo, não esquecer que é o responsável por aquela população, e dá-lhe o prazo dessa noite para se ir embora dali.

 

E agora, sim, temos esse encontro mágico do nosso herói com o posto dos correios, uma pequena casa abandonada. Já lá dentro vê o lema dos homens dos correios, gravado nas traves que ligam as paredes ao teto... faça sol, chuva, intempéries, nada detém os homens dos correios na entrega das cartas... qualquer coisa assim. E é aqui que se estabelece o diálogo mais interessante do filme: o rapaz, de que já aqui falei, o Ford Lincoln Mercury, desistira do sonho de conduzir carros (isso é para crianças) e quer tornar-se igualmente um homem dos correios. É-lhe dito que só um outro o pode nomear. Terá de erguer a mão direita e prestar juramento. E qual é o juramento? O nosso herói vai-lhe dando o lema gravado na trave. É uma das cenas mais conseguidas do filme. Aqui ainda não o sabemos, mas o rapaz revelar-se-á muito mais convicto e impetuoso no seu novo papel do que o original, e não é por ser mais jovem. É essa a sua natureza. 

 

Outra cena comovente: a despedida, nessa manhã, a aldeia em peso a vê-lo partir, já transportando mais cartas que lhe tinham deixado à porta. Mas já vai a cavalo, um presente da população. As pessoas trauteiam o hino enquanto ele se afasta (espero não estar a confundir a cena). O Sheriff revela-lhe ainda não estar convencido da sua autenticidade. O homem dos correios responde-lhe que só o poderá confirmar se ele voltar com uma carta. O Sheriff aproxima-se então a cavalo, já na estrada poeirenta, e dá-lhe uma carta. O filme tem cenas assim...

 

 

A aventura começara. A esperança é contagiosa. Anima. E todos se dispõem a pagar o preço pela liberdade, mesmo que seja o mais elevado possível, a própria vida.

Quando o nosso herói regressa, com as cartas que tiveram resposta, entre elas a do Sheriff, fecha-se esse círculo, a comunicação restabelecera-se. E reforça-se a esperança, pode ser que até talvez haja mesmo um governo e que o Presidente diga mesmo aquela frase, tudo vai correr bem...

Nesse regresso, será ainda surpreendido pela nomeação de novos homens dos correios, todos muito jovens, excepto um, sexagenário, especialista em comunicações. Ford Lincoln Mercury não tinha perdido tempo. E acrescentara ao lema, defender as cartas com a vida se preciso fosse. 

Todo o filme respira esse amor pela liberdade, como condição-base da dignidade de cada indivíduo. Como única forma de vida digna de ser vivida.

É assim que irão enfrentar o General Bethlehem, primeiro com os folhetos da rebelião, contra a tirania, folhetos que deixarão o General furioso e que o levam a dizer a line que dá o título a este post. A retaliação começa, contra as populações e contra os novos homens dos correios. A morte de quatro jovens levará o nosso herói a pegar no Ford Lincoln Mercury pelos colarinhos, os homens são mais importantes do que as cartas. Mas já nada os demove, todos tinham percebido a importância da sua missão, restabelecer a comunicação, unir as aldeias oprimidas.

 

Outra cena comovente: o General manda queimar a bandeira americana orgulhosamente hasteada  no posto dos correios. E depois atear o fogo ao próprio posto. Vemos os rostos tristes de toda a população. A bandeira como símbolo da unidade e da liberdade. Isto é muito americano, e é mais do que orgulho ou veneração, é afecto genuíno.

A liberdade dá imenso trabalho e exige vigilância constante. Não parece, mas é assim. O impulso totalitário também está inscrito nos genes humanos. Os tiranos, embora sejam menos em número, são mais fortes, porque são imunes à consciência, esse travão natural, e à empatia, que permite respeitar o próximo. Estão a ver o dilema? Nunca está concluída esta demanda. Nunca.

O nosso herói ainda terá de demonstrar valentia perante o clã. Uma trabalheira... mas no final, haverá um intervalo para amar e para segurar nos braços uma criança: É uma menina... diz-lhe ela. Chama-se Hope... Querem melhor fim para um filme?

Bem, não foi esse o entendimento de Kevin Costner que o projectou trinta anos para a frente, e essa é que é a cena final.

 

Este é o segundo Kevin Costner, como actor, a navegar aqui neste rio, mas o primeiro como realizador. Dele como actor, gostei muito do seu Eliot Ness n' Os Intocáveis, do seu Ray Kinsella no Campo de Sonhos, e do seu Jim Garrison no JFK. Mas talvez o seu papel tenha sido mesmo o Lieutenant Dunbar no Danças com Lobos.

 

 

 

Coincidência interessante: Saiu este mês um livro de Charles Bukowski, Correios (editora Antígona), que o apresenta assim: " Correios, o primeiro romance de Bukowski, é baseado na sua experiência como empregado dos Serviços Postais dos Estados Unidos ao longo de uma década, e foi publicado num momento em que o seu nome ascendia ao plano do reconhecimento literário universal.
Ponto de partida ideal para qualquer leitor que se queira iniciar na prolífica obra de Bukowski, encontramos em Correios as qualidades dos seus restantes trabalhos. Repleto de cenas hilariantes, este romance é também um retrato fiel das frustrações de um funcionário público sofredor.
As suas personagens, entre a ficção e a realidade, captam a essência e a universalidade do ser humano e nós, leitores, continuaremos a topar, em Bukowski, com bebedeiras, mulheres, zaragatas, eventuais rebates de consciência, enfim, com os trambolhões da vida."

 

 

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publicado às 02:25

É possível resistir à linguagem do poder

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.07.08

 

O que mais impressiona em The Little Foxes é a linguagem do poder e da manipulação, perfeitamente visível num clã sulista, os Hubbard, comandados pela irmã (magnífica Bette Davies).

Esta mulher dominadora tentará domesticar a filha como pensa ter domesticado o marido. Pura ilusão, este homem suave e de saúde frágil segue valores sólidos, dos quais não irá abdicar nunca. Sim, ao marido terá mesmo de o neutralizar.

É que para conseguir levar a cabo os seus planos ambiciosos, esta mulher utiliza todos os recursos possíveis da paleta: insinua-se, seduz, manipula e recorre à chantagem. É assim que consegue dominar o seu pequeno mundo: os irmãos, o sobrinho e, por arrastamento, a cunhada. O grande negócio está prestes a ser conseguido. O acesso à alta sociedade da grande cidade também.

 

É certo que a filha (comovente Teresa Wright) já mimetiza, de certa forma, os seus tiques de snobismo e de arrogância. Mas no final serão os valores do pai e do namorado que prevalecem, sobre a influência materna. Sim, a filha resiste-lhe no final e escolhe o caminho da vida real, dos afectos e do respeito pelos outros.

Impressionante confronto entre uma Bette Davies subitamente solitária, subitamente assustada, no cimo da escadaria, e uma comovente Teresa Wright em baixo, no "hall", a olhar para cima, tão jovem, tão doce, tão magoada, e no entanto, tão forte, a despedir-se da mãe.

Trata-se da opção pela vida, pela liberdade, pela autonomia. Aqui vemos o perfeito contraste com a linguagem do poder, da manipulação, da dependência. É esta, a meu ver, a ideia central do filme. O mais forte é, no final de contas, o mais fraco; o que pensávamos mais fraco é afinal, o mais forte.

 

Mas não nos iludamos: a linguagem do poder, na sua voracidade insaciável, faz estragos. O amado pai da nossa jovem jaz, morto, lá em cima, no seu quarto. E por pouco também ela própria se podia ter deixado enredar na terrível influência materna e ter-se transformado numa sua segunda versão, anulando todas as possibilidades de crescer, de se autonomizar, de se afirmar de forma saudável, de amar e ser amada.

Na cena final vemo-la com o namorado, pelo pátio exterior da casa, na noite chuvosa. Numa das janelas, o rosto impressionante da mãe, a vê-los afastar-se.

 

 

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publicado às 15:13

Thunderheart

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.11.07

Maravilhosa metáfora para os tempos actuais… no país, na Europa, no mundo… Revejo o filme com a mesma alma rebelde, e já lá vão quinze anos… Voltei sempre a esse Thunderheart para me lembrar que às vezes o indivíduo e o grupo podem enfrentar interesses obscuros e dominantes.

The suits… the Cavalry… a que o nosso herói julga pertencer no início e de que se vai distanciando ao longo do filme. À medida que encontra as suas verdadeiras raízes, que o sistema lhe tinha ensinado a rejeitar e a abandonar, deixando-o sempre inseguro, a agarrar-se a certezas exteriores, autoridade, justiça, the FBI…

A realidade exterior do sistema contrasta com a realidade humana das populações, da comunidade. E isso torna-se evidente, não se pode negar. Quem se aproxima dessa outra realidade, da humana, e ainda mantém uma réstia de humanidade na alma… desmonta essa fabricação.

Aqui o nosso herói recupera essa base de apoio e afirma-se como é, antes da programação. Irá seguir as suas raízes índias, o lado do pai. Mas ainda terá de sofrer esse abalo, descobrir que tinha seguido a mãe na negação e rejeição do pai. A identidade masculina faz-se sempre por diferenciação e implica a paz com o pai dentro de si.

Deliciosa expressão do suit, ao persegui-lo de carro, na cena final: He's going native on us... E deliciosa visão final do grupo, da comunidade índia, que aparece em cima dos montes, a toda a volta… como o bater de um grande coração universal… A visão da esperança dentro de cada um de nós…

 

 

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publicado às 11:25

O eterno Verão em Spielberg

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 16.10.07

Revi O Tubarão, Encontros de 3º grau, E.T. e O Império do Sol, os meus preferidos de Spielberg.

Há uma determinada claridade nos filmes dos anos 70 que muitos jovens tentam repor e reencontrar, mas talvez a história não se repita com a mesma magia.

E há uma inocência que convive com o poder impessoal. A inocência, em Spielberg, é uma inocência selvagem e rebelde, pelo menos nestes filmes da primeira fase. O olhar irá ensombrar-se mais tarde… bastante mais tarde… Mas até lá foi Verão, mesmo quando as personagens sofrem na pele e na alma (O Império do Sol) a maior violência!

Até lá foi Verão… N’ O Tubarão há uma comunidade que vive do turismo estival, há a eterna estupidez humana no poder, há uma voz sensata no meio dos interesses mesquinhos mas sempre solitária… Há o estranho que aparece para ajudar e se torna amigo e cúmplice de aventuras… E há a constante tensão e ansiedade, lemos todos os sinais de perigo, antecipamos o pior! Perto do final, enfrentaram-se os medos, as limitações, e é a alegria da sobrevivência que os inspira a nadar para terra.

Nos Encontros de 3º grau há uma perspectiva ingenuamente optimista da comunicação possível com os extraterrestres. Acaba por ser uma descrição poética dos terrestres, estes estranhos terrestres que esperam sempre por uma nave. Que ficam obcecados com a ideia de contactar outras inteligências e sensibilidades. E há sequências fabulosas! O nosso herói a construir uma montanha dentro de casa, já sem a família, a cena do telefonema, e a televisão a mostrar precisamente imagens da mesma montanha que ele está a tentar reproduzir com tanto sofrimento e angústia! Só nós vemos a coincidência, antes mesmo do nosso pobre herói! Genial! Outra, a da condução pelas pradarias a rebentar as vedações, símbolo da propriedade dividida, como um autêntico “cow-boy” dos velhos tempos, o desafio perante a autoridade militar, sobretudo este confronto com a autoridade militar, porque é tão desigual e impessoal! Identificamo-nos imediatamente com o percurso do nosso herói, subimos com ele a montanha, esperamos que consiga escapar para o outro lado!

No E.T. o Verão também se anuncia através das crianças, os protagonistas! É a infância na sua curiosidade e criatividade. E na sua inteligência. São elas que comunicam mais facilmente com outras inteligências. São elas que percebem intuitivamente o essencial. O próprio E.T. ficará fascinado com o mundo dos terrestres, sequência fascinante da comunicação à distância, por simpatia ou empatia, com a criança na aula de zoologia! Libertam-se as rãs e libertam-se as crianças, de um laboratório, de obstáculos, de limites. Por breves momentos, tudo é poesia! Há aqui igualmente o confronto com a autoridade militar e impessoal. E o lado sinistro de laboratórios muito brancos, assustadores. Magnífica sequência de uma luz que se ilumina no corpo branco do E.T. e de uma planta que renasce. E da fuga para casa, home, home… É a palavra mais acolhedora que conheço para o espaço onde se pertence. (Já em Rio sem Regresso, o filme de Preminger que dá o título a este blogue, é esta palavra que finaliza tudo: Home…)

Em Spielberg as personagens são credíveis, quase podiam surgir em documentário. O cenário também. Assim como as situações. E mesmo que os extraterrestres não o sejam, não são os terrestres os seres mais poéticos e sonhadores? Nessa perspectiva, tudo é possível! Os extraterrestres são à nossa imagem, à semelhança dos nossos sonhos!

Spielberg formou-se inequivocamente a ver filmes dos grandes mestres. Mas há uma arte Spielberg, uma claridade Spielberg, um ambiente Spielberg! E nestes filmes da primeira fase há um Verão que nos parece eterno, também ele, muito anos 70!

 

 

 

 

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publicado às 16:36

High Sierra

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.09.07

Quando o nosso herói é perseguido, no final, já viveu decepções, traições, e assistiu à mediocridade e à estupidez humanas, a sua terrível vulgaridade.

A rapariga que ajudara a libertar-se de uma limitação física, revelou uma limitação de alma, e essa não é operável. Rejeitou-o por um imbecil oportunista. Os parceiros do grupo do assalto degladiam-se por motivos básicos, primários. O ilusório sentimento de posse que dominou os seus ancestrais.

Mas ainda foi a tempo de descobrir o amor dedicado, desesperado, canino, e não só do cão, o “que dá azar”, mas da mulher que o acompanha até ao fim.

A montanha rochosa, imponente, magnífica, indiferente à perseguição e, no entanto, metáfora da liberdade, de valores como a rebeldia do indivíduo numa sociedade que se torna sufocante. A subida à montanha, o último refúgio. A liberdade possível.

“He’s free… free…” Ida Lupino a chorar e a sorrir… “free…”

 

 

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publicado às 17:37


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